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Os princípios verdes para pensar a paisagem

Foto do escritor: Ana Vitória Tereza
Ana Vitória Tereza
há 4 horas
5 min de leitura

Como o paisagismo pode nos ajudar a (re)conectar as cidades com a natureza?


Quando falamos em paisagismo, é comum pensarmos primeiro em jardins bonitos, árvores, flores e espaços agradáveis. Mas a paisagem é muito mais do que aquilo que os nossos olhos conseguem ver.


A paisagem acontece nos ciclos na natureza: entre a água e o solo, entre as plantas e os animais, entre o clima e a cidade, entre as pessoas e os lugares que habitam. Ela também guarda memórias, histórias e diferentes formas de viver o território.


É nesse sentido que o livro Cidade (Re)Conectada apresenta sete princípios para pensar a paisagem. Mais do que regras para projetar, eles nos ajudam a mudar a maneira como olhamos para os espaços onde vivemos.


Uma espécie de convite para perceber que paisagismo também é (re)conectar.


1. A paisagem faz parte de um sistema vivo e (inter)conectado

Nada na paisagem está realmente sozinho. Uma árvore, por exemplo, pode parecer apenas uma árvore. Mas, quando olhamos um pouco mais de perto, percebemos que ela participa de muitas relações: oferece sombra, interfere na temperatura, ajuda na infiltração da água, abriga animais, é casa dos passarinhos, abriga milhares de fungos essenciais ao solo, produz matéria orgânica e transforma uma rua em um local mais aconchegante com a sua sombra.


É assim que funciona uma paisagem: cada elemento participa de algo maior. Pensar o paisagismo dessa maneira é entender que uma praça, um jardim ou um parque não termina exatamente onde termina o desenho do projeto. Ele continua nas relações que estabelece com o entorno, com o solo, com a água, com a vegetação e principalmente com as pessoas. (Re)conectar a paisagem é perceber essas relações, dinâmicas e contínuas.



2. A paisagem acompanha os ciclos da natureza

A paisagem muda o tempo todo. As plantas crescem, florescem, dão frutos e perdem folhas. A chuva transforma o solo. A luz muda ao longo do dia. As estações modificam as cores, os cheiros e as formas de um jardim.


Por isso, uma paisagem não precisa ser pensada como algo completamente pronto e estático.

No paisagismo, podemos aprender a trabalhar com o tempo, e não contra ele. Escolher uma espécie também é escolher acompanhar seu ciclo, sua floração, seu crescimento e suas transformações. Um jardim pode ser diferente em janeiro e em julho. E isso não significa que ele deixou de funcionar. Pelo contrário: significa que ele está vivo.

A High Line, em Nova York, aparece no livro como um exemplo de paisagem pensada para acompanhar esses ciclos naturais. (Re)conectar também é aceitar, que a paisagem está sempre em transformação.


3. A paisagem influencia o clima e o conforto

Paisagismo também é falar sobre clima. Uma árvore não serve apenas para deixar uma rua mais bonita. Ela pode oferecer sombra e ajudar a diminuir a sensação de calor. Um solo permeável pode favorecer a infiltração da água. A vegetação pode contribuir para melhorar as condições ambientais de um espaço.


Nas cidades, essa relação se torna ainda mais importante. Em meio ao concreto e ao asfalto, a presença de árvores, jardins, áreas permeáveis e água pode ajudar a criar espaços mais confortáveis e preparados para lidar com as condições climáticas.


O livro também apresenta os antigos oásis e jardins persas como exemplos de como diferentes culturas utilizaram a relação entre vegetação, água e espaço para criar ambientes mais agradáveis. Isso mostra que usar a paisagem para melhorar o conforto não é uma ideia nova. É um conhecimento construído ao longo do tempo. (Re)conectar a cidade à natureza também é permitir que a natureza participe do conforto da cidade.



4. A natureza desperta os sentidos e promove o bem-estar

Uma paisagem não é apenas algo para olhar.

Ela pode ser sentida, e sentida de diversas formas ao longo do ano.


Podemos perceber o cheiro de uma flor, a textura de uma folha, o som da água, o movimento das árvores, a sombra em um dia quente ou até o sabor de uma fruta colhida no próprio jardim. É por isso que o paisagismo pode criar experiências e é a arte que trabalha com todos os nossos sentidos.


Um espaço pode nos fazer desacelerar, lembrar de algum lugar, despertar uma memória ou simplesmente proporcionar alguns minutos de bem-estar.


Os jardins Zen japoneses e os jardins de Claude Monet em Giverny, apresentados no livro, mostram diferentes formas de criar relações sensoriais com a paisagem. Quando pensamos dessa maneira, percebemos que projetar um jardim não é apenas escolher plantas bonitas. É pensar o que as pessoas vão sentir naquele lugar.

(Re)conectar também é voltar a sentir a natureza.



5. A biosfera é uma fonte de inspiração

E se, em vez de tentar ensinar a natureza a funcionar do nosso jeito, nós aprendêssemos com ela? A natureza passou milhões de anos acumulando conhecimento e encontrando maneiras de se adaptar, economizar energia, lidar com o calor, administrar água e criar relações entre diferentes organismos.


Observar esses processos pode nos ajudar a encontrar novas soluções para os espaços que construímos.


É essa a ideia da biomimética: olhar para a natureza como fonte de inspiração.


O Centro Eastgate Centre, no Zimbábue, é um exemplo de uma construção cujo sistema de ventilação foi inspirado no funcionamento dos cupinzeiros. No paisagismo, esse olhar também pode transformar a maneira como pensamos os espaços. Em vez de buscar soluções que ignorem os processos naturais, podemos observar esses processos e trabalhar a partir deles. (Re)conectar é também aprender a olhar para a natureza como escola.


6. A paisagem faz parte da cultura e da identidade dos povos

Toda paisagem conta uma história e está ligada com práticas culturais de pessoas, ao redor do mundo.

Uma praça pode guardar encontros. Uma árvore pode fazer parte da memória de uma comunidade. Uma plantação pode representar gerações de trabalho. Uma flor pode mover uma economia, como na Holanda, o mercado de Tulipas, que entrou para a bolsa de valores. Um jardim pode carregar tradições e modos de viver.


Por isso, não existe paisagismo separado do lugar. Antes de transformar uma paisagem, é importante entender o que já existe ali: sua história, suas pessoas, seus costumes, suas memórias e suas relações com o território.


O Alto Douro Vinhateiro, em Portugal, é um exemplo dessa relação. Seus vinhedos, terraços, caminhos e práticas agrícolas foram construídos ao longo de gerações e fazem parte da identidade daquele território. Paisagismo, nesse sentido, também é cuidar das histórias que já existem. (Re)conectar é reconhecer que cada lugar tem uma identidade e que a paisagem ajuda a contar essa história, para que não se perca e não se gentrifique.



7. A (re)conexão contribui para cidades mais saudáveis

Os seis princípios anteriores nos levam a uma ideia maior: a paisagem pode ser parte da solução para muitos dos desafios das cidades.


Quando entendemos que a paisagem é viva, que acompanha ciclos, que influencia o clima, que promove bem-estar, que pode nos ensinar e que carrega cultura, começamos a enxergar o paisagismo de outra maneira.


Jardins de chuva, biovaletas, áreas úmidas, corredores ecológicos, arborização e espaços públicos podem contribuir para lidar com questões como o excesso de calor, as enchentes, a perda de biodiversidade e a falta de espaços de convivência.


Mas a ideia não é simplesmente colocar mais áreas verdes na cidade. É (re)conectar a cidade aos sistemas naturais dos quais ela nunca deixou de pertencer.

Uma nova maneira de olhar para o paisagismo

Os princípios nos convidam a mudar uma ideia muito comum: a de que a natureza está de um lado e a cidade/civilização está do outro. A cidade também faz parte da natureza.


O jardim não é apenas decoração. A vegetação pode ser infraestrutura e tecnologia. O espaço verde não precisa ser uma ilha isolada. Ele pode fazer parte de uma rede. Passamos de uma paisagem que apenas ocupa o espaço para uma paisagem que se relaciona com ele, onde a estética tem uma função ainda maior: de encantamento.


 
 
 

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